sábado, 29 de setembro de 2018

"O SILÊNCIO QUER FALAR"



Nunca havia passado pela minha cabeça que ficar em silêncio poderia se tornar um luxo. O sábio Salomão, rei de Israel, deixou em Provérbios 23. 19 a seguinte instrução: “Ouve tu, filho meu, e sê sábio...” No período em que estamos vivendo, onde cada um tem a sua própria afirmação, suas ideias, seus ideais, suas opiniões, em meio a tantas vozes, torna-se necessário a disciplina do silêncio. De um modo geral,  diversos tipos de barulhos já estão tão incorporados no nosso dia-a-dia  que, quando um deles cessa, sentimos um vazio nos incomodando; somente então é que nos damos conta de quanto aquele som já estava fazendo parte do nosso “bem estar”. Às vezes o cessar de um determinado barulho, nos causa tanta curiosidade, que até vamos verificar mais de perto o que estava acontecendo. Não nos damos conta, mas evitamos constantemente ficar em silêncio. Buscamos o barulho inclusive quando temos a oportunidade de nos afastarmos dele. Deveríamos nos perguntar qual é o motivo de termos medo do silêncio.

A verdade é que conseguir obter esse silêncio do qual falamos não é uma tarefa fácil e inserir um pouquinho disso na nossa rotina pode ser um desafio ainda mais difícil. Muitos dos nossos desejos, das nossas aspirações ou das nossas preocupações estão onde há barulho. Um barulho externo e um barulho interno, em uma corrente de pensamentos com um fluxo cansativo que nunca para.

Foram realizados vários estudos sobre esse tema. São especialmente presentes aqueles em que se compara as pessoas que vivem nas grandes cidades com aquelas que vivem em ambientes rurais. As diferenças nos deixam de boca aberta. As pessoas que vivem ou trabalham em lugares com muito barulho, que dormem ouvindo o barulho ou a agitação de uma cidade que não para são mais vulneráveis a sofrer determinados problemas de saúde.

No entanto, nossa mente precisa ficar em silêncio. Pois, somente graças à ausência de barulho nossos neurônios podem potencializar seu crescimento. Além disso, nossa mente e nosso corpo relaxam, livrando-se de preocupações que podem ser um acúmulo de problemas e tensões originadas pelo barulho exterior. Porque quando há barulho não conseguimos nos ouvir. Se não nos ouvimos, dificilmente vamos poder contar com uma mente lúcida e clara.

Fazer silêncio, também é uma estratégia excelente, para se chamar a atenção daqueles que estão em tumulto. Quando um líder faz silêncio, normalmente as pessoas se voltam para ele, esperando entender, ou mesmo obter uma explicação dessa sua atitude.

Eu, todavia, a cada dia mais preciso do silêncio como meio de comunicação. O silêncio abre espaço para a comunicação. Afinal, sem silêncio nada será comunicação.

O silêncio passa a ser comunicação sempre que existe inflação de comunicação.

Em tal caso, o silêncio passa e ser o meio mais efetivo de comunicação, pois, na poluição das muitas comunicações, o que se comunica se esvazia de significado.

Portanto, é o silêncio que resignifica os significados que foram esvaziados pelo excesso e pelo abuso do comunicar sem alma.

É por esta razão que se pode perceber a comunicação de Deus também na forma dos longos silêncios de Deus na História. Afinal, Deus fala sempre. Entretanto, fala demais quando não está falando nada.

A Revelação diz que em horas de tumultos na história Deus fala pelo silêncio.

Quando o homem pergunta “Onde está Deus?” — Deus está falando. Sim! Está falando pelo silêncio, e conseguindo comunicar-se melhor do que quando está dizendo algo por palavras.

O pecado humano parece nos conceder apenas ouvir melhor a Deus em meio às angustias que se fazem acompanhar pelo silêncio total de Deus em relação à dor por nós sentida.

Afinal, é também somente na profundidade da intimidade que se pode andar com alguém em silêncio, sem a preocupação da animação das palavras, pois, sabe-se o outro; posto que entre amigos dessa qualidade tudo já esteja dito sem ser falado.

O salmista no Salmo 46 verso 10 diz: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”.

Quando o homem silencia, Deus fala. Mas quando o homem discursa, Deus faz aquele silêncio que significa ausência.

Mais, quando o homem silencia em quietude submissa, o falar de Deus é mais que dizer, pois, para o homem, se torna um saber não com a razão, mas um saber com o provar essencial do coração.

Silêncio!

Preciso ouvir o silêncio falar.

S I L Ê N C I O, por favor, é a sua hora de falar.



Soli Deo Gloria
Flavio Ferreira Constantino

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

NINGUÉM RESPONDE AO GENERAL por Fernando Gabeira



De novo na estrada, no centro de Minas, a 700 quilômetros do Rio. Deixei um clima político bastante polarizado. A série de entrevistas com candidatos mostrou como o mesmo trabalho pode parecer contrário ou a favor do entrevistado, dependendo do ângulo do espectador.
Eu mesmo fui criticado por não ter respondido ao general Mourão sobre heróis e tortura. As pessoas talvez desconheçam a fronteira entre uma entrevista e um debate.
Como jornalista, ouço as pessoas, registro no meu caderno ou gravo as opiniões colhidas. Às vezes, refaço a pergunta, apenas para obter mais transparência nas ideias e projetos. Quando a entrevista é em conjunto, trata-se de um ritual coletivo que tem como objetivo oferecer uma visão mais completa do personagem, dentro de um determinado prazo.
Se alguém diz “heróis matam”, não posso contestá-lo. E se o fizesse, diria apenas que heróis também matam, a julgar pela História, inclusive da esquerda e das lutas anticoloniais.
Heróis morrem pela liberdade, ora lutando pelos irmãos de cor, como Martin Luther King, ora pela paz, como Mahatma Ghandi. Herói apenas salvam vidas, como a professora Helley Abreu, na escola incendiada em Janaúba.
Às vezes, heróis não matam nem morrem. Simplesmente dedicam-se a ajudar os outros. Conheci Noel Nutels no aeroporto de Belém, e ele me contou como cuidava dos índios, sobretudo de seu pulmão. Fiquei impressionado com ele até hoje. Isso tem mais de meio século.
Não conheci Nise da Silveira pessoalmente. Mas quando vi o que fez pelos doentes mentais, livrando-os do choque elétrico e despertando sua visão estética, compreendi que sua vida também teve um grande propósito.
Quanto à tortura, sou bastante tranquilo ao condená-la. Hoje, o Brasil subscreve acordos internacionais que a varrem de nossas práticas cotidianas. Não significa que cessaram: apenas são ilegais.
Ao defender a tortura em nome de grandes ideais, a direita cai na mesmo equívoco da esquerda. Adota o lema: os fins justificam os meios.
Na minha cabeça, essas coisas são claras. Como tenho a possibilidade de me expressar por artigos e uma longa existência por trás de cada opinião, estou à vontade percorrendo o Brasil, ouvindo as pessoas.
Não me importam se racionais, sensatas, delirantes ou alucinadas: gosto de ouvi-las. O alívio de voltar a elas se deve à sua leveza e complexidade. Uma leveza que não atrai torcidas contra ou a favor, como um candidato. E uma complexidade que não nos seria possível antever, se Shakespeare fosse um escritor com viseiras ideológicas.
Não acho que valha a pena agora uma discussão sobre 1964 ou sobre a Guerra do Paraguai. O agora é muito delicado.
Esta semana tentei usar a França para formular uma hipótese. Lá, depois de um período de barricadas de esquerda, sobrevém um governo de ordem. De Gaulle venceu as eleições depois do Maio de 68. A tendência no Brasil foi a do fortalecimento de uma visão que deseja ordem e seriedade na condução do governo.
Minha dúvida ainda se apoia nessa referência à França. De Gaulle representava um tipo de autoridade. Le Pen e sua filha Marine, da extrema direita, apenas chegaram ao segundo turno das eleições. A ascensão de seu movimento não foi suficiente para ganhar o governo.
Sei como é precário comparar um país com outro. Mas o que posso fazer, senão usar também algumas memórias?
Ninguém sabe do futuro. É possivel usar como exemplo a vitória de Trump. Mas ele tinha uma condição especial: milionário, apoiado por uma rede de TV, integrado, com um pouco de desconforto, num grande partido.
O que restou dessa passagem mais longa pelo Rio, respirando o clima eleitoral, candidatos, equipes, planos, sai um pouco apreensivo.
O clima de radicalização está levando as pessoas a lerem apenas notícias com as quais concordam. Cerca da metade das intervenções na rede negava a facada em Bolsonaro. Se continuarmos assim, abrigados em tribos, acreditando apenas no que queremos acreditar, será cada vez mais difícil a vida de quem não habita os extremos.
Para os intelectuais, é um perigo de morte. Se você acha que sabe tudo, que tem a correta visão do mundo, não precisa ler os outros, confrontar argumentos, corrigir erros, a tendência é a fossilizacão.
E nem para os fósseis a vida está fácil no Brasil, Luzia que o diga.
Artigo publicado no Globo em 17/09/2018

Link: http://gabeira.com.br/ninguem-responde-ao-general/

domingo, 2 de setembro de 2018

"EM NOME DE DEUS"




O jornalista mineiro Eduardo Szklarz, autor do livro “NAZISMO: Como ele pode acontecer” diz que as 3 grandes religiões monoteístas – cristianismo, judaísmo e islamismo – pregam a paz, a tolerância, a compaixão e o amor ao próximo. Mesmo assim, elas deixaram suas marcas em guerras e banhos de sangue ao longo da história. Para alguns pesquisadores, uma explicação estaria na própria lógica do monoteísmo: se apenas o “meu” Deus é verdadeiro, os “outros” certamente são falsos – e seus seguidores, infiéis.

O século 20 viu crescer uma devoção militante nas principais religiões, chamada popularmente de fundamentalismo. Apesar das enormes diferenças entre os grupos fundamentalistas, eles geralmente buscam reconduzir sua religião ao caminho “puro e verdadeiro” de seus ancestrais. Por isso, os alvos principais são os seguidores moderados de sua própria crença. Foi o caso dos protestantes americanos que, no início do século 20, quiseram se distinguir dos protestantes liberais e se denominaram “fundamentalistas”. Eles queriam voltar aos fundamentos da tradição cristã, o que incluía interpretar a Bíblia da forma mais literal possível e parar de ensinar a Teoria da Evolução nas escolas – uma campanha que ainda divide os EUA.

Em meu livro "DEUS NÃO DESISTE DE VOCÊ", pontuo que em muitos arraiais cristãos  virou um jargão a palavra “EM NOME DE DEUS” para justificar as mais truculentas, descabidas, covardes e inescrupulosas ações contra seus próprios membros, seja por desconhecimento ou por pura falta de misericórdia.

A questão é uma só: por que aquilo que supostamente evoca a Busca de Deus, gerou e ainda continua gerando tanta morte, medo, perseguição, destruição de culturas, embates seculares entre povos e etnias, rupturas entre irmãos e pais, a produção de toda sorte de preconceito e juízo, e, sobretudo, tanta arrogância por parte de quem supostamente está buscando a Deus?

Entretanto, desde a fundação da crença na Busca de Deus, segundo a Bíblia, as lutas e as disputas homicidas estiveram sempre presentes. A História de Israel está marcada pelo sangue dos que, em nome de Deus, foram mortos pelos seus próprios irmãos; sendo os profetas o maior exemplo disso no passado.

Será essa Busca de Deus uma busca de Deus mesmo ou seria busca do diabo? Porque somente a busca do diabo é que deveria produzir tanta desgraça e destruição.

“EM NOME DE DEUS” Jesus também foi morto pelos Caims que o cercavam. Dos apóstolos, somente João morreu de morte natural e velho. Os demais foram mortos em razão de que aqueles que eram adeptos da busca de Deus incitaram as autoridades contra eles... irmãos contra irmãos.

É “EM NOME DE DEUS” que mais se matou e mata.

Nas palavras do historiador americano Mark Juergensmeyer, da Universidade da Califórnia, a linguagem religiosa tem o poder de “trasladar o conflito humano a uma dimensão cósmica”. Traduzindo: no dia-a-dia, não matamos gente; mas, se Deus ordena, podemos. Nesse caso, a violência não seria um ato selvagem, mas o cumprimento da vontade divina.

O escritor Francês Villiers de I’Isle – Adam narra em “La Torture par esperance” (1883) que:

“No século XVI, em Saragosa, na Espanha, um rabino apodrecia em um fundo de masmorra, torturado pelo Santo Ofício para que abjurasse de sua fé. Um irmão dominicano, terceiro Grande Inquisidor da Espanha, seguido de um torturador e de dois familiares, vem lhe anunciar, com os olhos em lágrimas, que “sua correção fraternal terminou”: ele subirá no dia seguinte à fogueira com outros quarenta hereges como ele e deve recomendar sua alma a Deus.

Pouco depois dessa visita, o prisioneiro nota que a porta da prisão está mal fechada: não ousando acreditar, ele a abre com hesitação, percebe um vasto corredor fracamente iluminado por tochas. Ele se arrasta pelo chão, apavorado com a ideia de ser descoberto. Após se arrastar durante longos minutos, sente uma corrente de ar sobre as mãos e nota diante de si uma pequena porta.

Levanta-se, empurra-a. Ela cede em esforço e se abre para um jardim perfumado de limoeiros. A noite é magnífica, pontilhada de estrelas.

O rabino, cansado mas com o coração cheio de esperança, acredita que foi libertado. Já se vê escapulindo em direção às serras muito próximas, respira deliciado o ar da liberdade.

De repente, dois braços surgidos da sombra o abraçam e ele se encontra colado no peito do Grande Inquisidor. Este último, em lágrimas e com um ar de bom pastor recuperando sua ovelha desgarrada, lhe sopra ao ouvido com um hálito fétido em virtude do jejum: “Então, meu filho, justo na véspera de sua possível salvação, você estava querendo nos deixar’”.

O recado do poeta francês foi claro: as opressões em nome do amor são as mais cruéis. Discursos melosos podem encobrir maldades inomináveis.

Infelizmente, o espaço religioso proveu, e ainda provê, oportunidade para que homens e mulheres dessem vazão ao que há de mais sórdido. Durante todo esse período de ministério vi pessoas fazendo e falando muitas aberrações "calcadas" no jargão "EM NOME DE DEUS", vi casamentos sendo feitos e outros sendo desfeitos, vi pessoas vivendo temerosas porque a profeta disse "EM NOME DE DEUS" que ela iria morrer pelo fato de não estar vivendo como pretensamente o Senhor gostaria. Vi pessoas vivendo infelizes por que "EM NOME DE DEUS" viviam traumatizadas achando-se que estavam vivendo debaixo da graça de Deus. Jesus viveu intensamente o seu ministério denunciando isso. Alguns têm energia para correr meio mundo e fazer um convertido. Mas, só para torná-lo réu de um inferno duplamente aquecido. Não é preciso voltar dois séculos para constatar isso. A presente geração está cada vez mais cheia de gente parecida com o Grande Inquisidor. Gente que "EM NOME DE DEUS" tem transformado a vida de muitos incautos um verdadeiro inferno.

Segue a pergunta que não pode parar de ecoar em nosso coração:
COMO PODE ALGUÉM MATAR EM NOME DO DEUS QUE ESCOLHEU MORRER?

Que Deus tenha misericórdia de nós.


Soli Deo Gloria
Flavio Constantino

ALEGRAI-VOS SEMPRE NO SENHOR

  Paulo nos diz que o grande poder na vida é sempre o contentamento, é gratidão, é a capacidade de poder tudo naquele que nos fortalece. Ali...