sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crescem os crentes, aumentam os problemas


Algo vem me intrigando sobre a realidade brasileira: o rápido crescimento do protestantismo não tem sido acompanhado de redução dos problemas sociais, políticos, econômicos, morais. Algo deve estar errado... O cristianismo evangélico não apenas conduz a um encontro pessoal com Jesus Cristo, único Senhor e Salvador, chamado de conversão ou novo nascimento, mas também, integra o convertido a uma comunidade de fé, onde deve crescer à imagem de Cristo em santidade, temperamento, caráter, valores e propósitos, e é enviado ao mundo como missionário.

O cristão deve ser sal e luz, ser diferente, reconstruir a cultura. Ser sal e luz implica participação: família, empresa, comunidade, associações, Estado, promovendo o reino de Deus. Ser diferente é fazer diferença, contra os sinais sociais do pecado e do principado das trevas: porfia, injustiça, desonestidade, mentira, opressão. Em obediência ao seu mandato de reconstrutor da cultura, até o Dia Final, o cristão responde com misericórdia à dor humana e denuncia profeticamente as estruturas do mal. Um cristianismo genuíno conduz a uma equação direta: quanto maior for o crescimento do número de cristãos em um país, menores serão os seus índices de problemas. Caso contrário, há algo errado, parcial, ou distorcido no conhecimento bíblico, no discernimento pelo Espírito Santo, no aprendizado histórico, no sentido de vida, nos desdobramentos éticos, que incluem o exercício responsável da cidadania.

Uma salvação apenas para o outro mundo e o fim do mundo, para a alma isolada no templo — curtindo a vida privada, batalhando com os anjos, buscando prosperidade, insensível, irresponsável — mostra que não houve salvação, doutrinação ou santificação. A Igreja não cresceu; inchou, imersa em sua superficialidade e inutilidade. Combatem-se os vícios individuais, mas não se combatem os vícios sociais.

As igrejas neopentecostais sofrem da “síndrome de Adão”: sem umbigo, não têm passado ou referência histórica. Sem passado não há lição acumulada, nem há futuro, apenas o ativismo sincrético e pragmático do presente. As igrejas pentecostais estão lentamente saindo de duas atitudes (que não são intrínsecas ao seu movimento): o isolamento sectário e a irresponsabilidade política — o contrário era considerado “mundanismo”. Com limitado interesse pela teologia política, pela história política e pela ética social, adentram o cenário político sem maior preparo e sem propostas.

Reduziu-se o político ao eleitoral, com candidaturas oficiais corporativistas e clientelistas, com a arrogância teocrática de que fomos chamados para “ser cabeça e não cauda”. Os escândalos se sucedem e, no lugar do sangue dos mártires, temos os sanguessugas. As igrejas históricas, desde o regime militar, deram as costas ao seu passado de luta pela abolição, pela República, pela separação entre Igreja e Estado, pela justiça social; partilharam, na década de 70, da heresia de que “crente não se mete em política”; retraídas, acomodadas, deram lugar a gerações de alienados, que substituíram a praça pública pela praça da alimentação.

Se continuarmos assim, mesmo se chegarmos a 100% da população, a corrupção política, as desigualdades, a violência e a imoralidade não diminuirão. Não mudaremos se não quisermos mudar. Os tempos não são fáceis (o foram em alguma época?). Há um Império dominando o mundo, impondo uma idéia única, fechando a história, desqualificando as utopias. Há massificação, desinformação, pressão e tentação em direção ao hedonismo — compremos e curtamos que amanhã morreremos —, ao materialismo prático do consumismo, que separa o templo do tempo, o individualismo e o discipulado. Há louvorzões de baixos conteúdos teológicos; sermões de rasos conteúdos bíblicos; showscultos em vez de liturgia; astros em vez de profetas.

Não é fácil: Legislativo com mais prontuários do que currículos; Executivo que trai seu programa; Judiciário politizado. Nós, os protestantes, multidões de “monges civis”, estamos sem saber o que fazer nas próximas eleições, ante uma horda de candidatos, em sua maioria, viciados, pitorescos, despreparados. O que fazer, se nos faltam conteúdo, discernimento e visão? Se somos manipulados pela imprensa, ou iludidos pelos candidatos? Se compramos “gatos por lebres”? Se nos impõem a falsa alternativa entre o candidato que é o lado direito dos banqueiros e o que é o lado esquerdo, o antigo que fala abobrinhas e o pseudo-novo que fala chuchu? Ambos têm o mesmo programa macro-econômico — de Collor, dos Tucanos e dos neopetistas — de agrado do Império e das elites, que dá esmolas em vez de promover a justiça, a dignidade e o desenvolvimento (e há irmãos nossos defendendo os seus cargos, e outros a fim de entrar...). Há, porém, outras candidaturas, que conscientizam e propõem alternativas. Em uma destas é que vai o meu voto!

Autor: Bispo Robinson Cavalcanti

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