domingo, 23 de maio de 2010

Os "Filhos do Reino" - Quem são eles hoje? ( final )


3.Terceiro, pelo afastamento do fundamento da Reforma Protestante, alicerçado nas três temáticas absolutamente presentes no N.T.: evangelização, serviço e transformação histórica.

A reforma de Lutero não deve ser vista apenas sob a perspectiva religiosa. Se nos restringirmos ao dado religioso, não será possível sequer entender o fenômeno religioso em si. O dado religioso se constrói na História, em meio aos fenômenos sociais, políticos e econômicos. A Reforma Protestante não só revoltou as classes populares contra a tirania dos dogmas e da religião; sublevaram-se também contra a miséria e a injustiça. Não buscaram na Bíblia apenas a doutrina da salvação pela graça, mas também a prova da igualdade original de todos os homens.

Segundo Hegel, filósofo alemão, a reforma luterana foi a revolução fundamental, pois com Lutero começou a liberdade de espírito, liberdade que não apenas se conhece como direito, mas que é exigida como tal. O confronto de Lutero com Roma teve profundas implicações políticas e históricas. Ele não se confrontava com um “estado de espírito”, mas com um Estado Histórico tirânico e autoritário.

A maior luta de Jesus no primeiro século foi contra a virulência do sistema sacrificial presente na estrutura sócio-politica, econômica e religiosa da Palestina do primeiro século e que corruía a vida dos oprimidos.

É nesse contexto que devemos entender a prática de Jesus como desligitimadora da interpretação da lei feita pelas classes dominantes. Jesus defende a lei (Torah), como vontade primordial de Deus em favor da vida. Jesus se posiciona contra as tradições humanas, criadas pelos homens e utilizadas “como vontade de Deus”, para poder oprimir os demais.

Esta é a visão de Jesus. Ou seja: a vida humana está sempre acima da lei. Deste modo, qualquer pretensa manifestação da vontade de Deus contra a vida real dos seres humanos acaba sendo um atentado ao próprio Deus. A lei está sempre em referência à vida. Nenhuma lei tem valor em si. Isto é o que significa que “a lei foi feita para o homem”. Aí está a grande novidade da prática de Jesus, que manifesta soberania a da pessoa (sujeito) perante a lei e seu cumprimento e que certamente foi considerada escandalosa, subversiva e até mesmo demoníaca pelos dirigentes judeus. Isto nos permite entender por que nos evangelhos se insiste, depois da morte de Jesus, que Ele foi morto “cumprindo-se a lei”. Ele foi morto pelo pecado que sempre denunciou, pelo pecado que se comete cumprindo a lei.

O pecado o matou, porque Ele o havia denunciado e o faz cumprindo a lei. Jesus morre pelo pecado que se comete cumprindo a lei. E é morto porque denunciou este pecado. O apóstolo Paulo, em sua teologia, interpreta a morte de Jesus como um sacrifício que liberta dos sacrifícios, porque liberta a pessoa da busca da justiça pelo cumprimento da lei.

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