domingo, 17 de março de 2019

QUARESMA





       Se você leitor me permitir, quero antes de falar sobre a QUARESMA falar sobre o Carnaval.

     A origem do carnaval ainda é desconhecida. As primeiras referências a ele estão relacionadas a festas agrárias. Alguns atribuem seu surgimento aos cultos de agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela colheita, realizados na Grécia durante o século 7 a.C. A festividade incluía orgias sexuais e bebidas, e os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais.

      As folias do carnaval também estão ligadas às festas pagãs romanas, marcadas pela licenciosidade sexual, bebedeira, glutonaria, orgias coletivas e muita música. Eram conhecidas como bacanais (em homenagem a Baco, o deus vinho e da orgia), lupercais (em homenagem ao deus Saturno, que, segundo a mitologia grega, devorou seus próprios filhos).

      Com o advento do cristianismo, a Igreja Católica Apostólica Romana começou a tentar conter os excessos do povo nessas festas pagãs e a condenar a libertinagem. Porém, com a resistência popular, em 590 d.C. ela própria oficializou o carnaval dando origem ao "carnaval cristão", quando o Papa Gregório I marcou definitivamente a data do Carnaval no calendário eclesiástico.

     Esse momento de grandes festejos populares antecedia a Quaresma, período determinado pela Igreja Católica para que todos os anos  os fiéis se dedicassem, durante 40 dias, a assuntos espirituais, antes da Semana Santa. No período que ia da Quarta-feira de Cinzas até o Domingo de Ramos, o povo deveria entregar-se à austeridade e ao jejum.

    Como o povo enfrentaria um longo período de privações e abstinência, alguns "carnais" permitiram que o povo cometesse então algumas extravagâncias antes. Às vésperas da Quaresma, os cristãos fartavam-se de assados e frituras entre domingo e a "terça-feira gorda". O que deveria ser apenas uma festa religiosa acabou assimilando os antigos costumes de libertinagem e bebedeiras.

      Esses dias de "vale-tudo" que antecedem a Quaresma, em que as pessoas ficam 40 dias sem comer carne, passaram a ser chamados de adeus à carne, que em italiano é carne vale, ou carnevale, resultando na palavra carnaval.

        A Quarta-feira de Cinzas, primeiro dia da Quaresma, simbolizava o momento em que as pessoas se revestiam de cinzas, evocando que do pó vieram e para o pó retornariam, e ingressavam no período em que a Igreja celebra a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

     Visto que até hoje essa festa traz consequências físicas, morais e espirituais degradantes e estampadas nos noticiários da Quarta-feira de Cinzas, aconselho aos que não participam do carnaval que continuem de fora, seguindo o conselho bíblico em 1Jo 2.16: "Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo". Sendo assim, não convém ao cristão, mesmo a titulo de curiosidades, participar dessa festividade.

       Voltando ao tema, muitos cristãos tem rejeitado, seja por desconhecimento, seja pela imediata associação com o catolicismo romano, os ensinamentos trazidos pela correta observação do tempo da Quaresma. Contudo, esta data celebrada pela Igreja que é, em resumo, o tempo litúrgico reservado especialmente para refletirmos sobre a conversão, as doutrinas da Fé, da Graça, além de ser um momento fundamental de preparação individual e em grupo para o tempo de Páscoa. A Quaresma possui raízes muito mais profundas do que a maioria dos cristãos devotos imaginam.

    A palavra "quaresma" tem origem na junção de duas palavras oriundas do Latim, "quadragesima" (Quadragésimo) + dies (dia), fazendo, assim, referência ao tempo de 40 dias que antecedem a Páscoa. Sua celebração faz parte da história da Igreja Católica e de sua tradição. Dentro da doutrina católica esse período de quarenta dias serve, dentre outras coisas, para que o fiel faça jejuns (alguns fazem jejum de carne e de derivados de seres vivos como leite, ovos, etc. O mais comum é o jejum de carne) e observem de forma especial esses dias como dias penitenciais, ou seja, dias em que deve se penitenciar a si mesmo com o objetivo de alcançar o perdão dos pecados e se aproximar de Deus.

        A obra "A luta entre o Carnaval e a Quaresma", de Pieter Bruegel, o Velho, ilustra bem o conflito dualista humano a tensão entre o ente religioso e o desejo em excesso do prazer. A obra é uma expressão quase cirúrgica do que temos nas culturas da cristandade, a entrega desenfreada antes que a quaresma chegue ou, em outros casos, a entrega para o prazer antes que a seriedade do ano com sua rotina pesada chegue - afinal é carnaval e tudo está liberado.

         O autor ainda alerta para o paradoxo entre "natureza e graça" e "santo e profano" faz que alguns recorram a caminhos que vão desde a aparente "pureza critica", que suprime a natureza (os prazeres da carne), até a entrega absoluta e consciente para sarjeta do prazer. No entanto, ambos os casos ignoram o que há de mais precioso na vida e mais urgente em nosso meio, pois afinal, ambas as alternativas são dualistas que dividem o ser em: ora um ser moralmente religioso, ora um ser fanfarrão. O dualismo faz do sujeito então um hipócrita.

        Visto não ser um sacramento, a Quaresma não é de observância obrigatória, nem está diretamente ordenada nas Escrituras. Sendo assim, creio que a salvação é pela graça e não por obras humanas, conforme diz a Bíblia em Efésios 2. 8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie". Devemos considerar que nenhum tipo de santificação, jejum e oração gerará qualquer mérito para que recebamos a misericórdia de Deus. Nenhuma disciplina quaresmal é capaz de nos fazer merecedores da Cruz de Cristo. A Cruz, sim, deve nos conduzir constantemente à oração, ao jejum e ao arrependimento.

          Por outro lado, a observância desse período tem como único objetivo trazer o cristão ao centro da vida cristã, enfatizando o estudo da Palavra, a oração, o jejum e a prática da caridade cristã . Evidentemente, tais virtudes não devem ser cultivadas apenas durante o tempo da quaresma como se fossem obrigações legalistas e através das quais se alcançaria o favor Divino. Muito pelo contrário. A Quaresma é o tempo propício para que o cristão reflita e retome alguns aspectos da vida cristã que podem haver sido perdidos ou enfraquecidos ao decorrer da caminhada de fé em razão da decaída natureza humana.



Soli Deo gloria

Flavio F Constantino
                 

Um comentário:

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